terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Vitória de Churchill, de Michael Dobbs


Antes de qualquer coisa, gostaria de me desculpar por esses quase quatro meses de inatividade. "Por incrível que pareça", eles acabaram por coincidir com os quatro meses do semestre, que ainda não acabou, mas que chega próximo ao seu fim.

A própria leitura desse livro foi meio que um desafio à quantidade de estudo que necessitava. Peguei quatro ou cinco noite e fui até umas duas da manhã. Isso é mostra da qualidade do livro, porque quando é porcaria, durmo de babae em cima.

A história do livro é, inclusive, bem interessante. Comprei num impulso, quando passeando no Pier 21, quando vi um livro com título interessante por R$9,90. (Aquela loja de lá deve ser o lugar com os melhores descontos do mundo, afinal, quem vai no Pier pra comprar livros?). O livro ficou jogado por algum tempo em um canto, até que comecei a lê-lo.

E do primeiro capítulo para o segundo foi coisa de um mês. Mas do segundo para o último, coisa de quatro ou cinco dias.

Entrando no mérito do livro mesmo, cabe antes dizer quem é o autor. Michael Dobbs foi acessor da Primeira-Ministra Margaret Thatcher, e usa isso para reforçar (sim, como num argumento de autoridade) o fato de que conhece a Downing Street 10. Mais do que a orelha do livro pode mostrar, foi o posfácio da obra que mais me alertou sobre o autor. E foi um alerta bastante positivo.

Numa "exposição de motivos" do livro, Dobbs coloca a literatura, e, em local destacado, o romance, como um veículo viável para a propagação e, por que não, escrita da história. Foi isso que tentou fazer com "A Vitória de Churchill".

A estória, com grande base na História, mistura momentos de ficção com realidade e, vez por outra, uma faceta de "realidade provável", um passado que não foi documentado, mas que, por meio da imaginação literária, vem a tona.

Assim, misturam-se os 8 dias que envolveram a Conferência de Yalta, na Criméia Russa, com a ficcional história de Marian Nowak, conde polonês travestido de encanador para escapar ao regime stalinista.

Início e fim do livro se dão no Christina, barco de Ari Onassis, amigo de Churchill no fim da vida. Numa das viagens que faz a bordo com o filho, Randolph, que leva o nome do avô, é mostrado o caráter de Churchill em relação ao filho e o ficcional relacionamento daquele com o polonês já citado.

Temos uma excelente narrativa da conferência que marcou, mais que o fim da Segunda Guerra Mundial no Ocidente, a criação das Nações Unidas e a retalhação da Polônia no fim da Guerra.

Surgem, portanto, como personagens secundários o presidente americano Franklin Roosevelt e o ditador soviético Stalin, os outros três vértices da chamada "Santíssima Trindade".

Entretanto, tão coadjuvantes quanto estes aparecem Eden, ministro de Negócios Exteriores britânico, quanto Sawyers, criado de Churchill à época, além da filha deste, Sara.

Não podemos deixar de levar em conta as diversas intervenções ficcionais da história de Piorun, cidade dos Nowak, que fora atacada e destruída pelos Alemães da Wehrmacht e posteriormente pisoteada pelo Exército Vermelho.

Temos, com "A Vitória de Churchill", um excelente relato da personalidade da grande figura de Winston Churchill, assim como uma ótima reportagem à Conferência de Yalta (com suas mostras de impotência britânica e fragilidade de Roosevelt), além de uma msotra ficcional do que era ser polonês ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Nota 9 ao livro, que tem aquela grande qualidade de ser envolvente, nos prendendo à história depois que adquire ritmo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Participação de homens no curso de Promotoras Legais Populares

1. Da Antecipação da Reunião

Antes de entrar no real motivo da reunião, farei apenas uma pequena nota. É o modo como o assunto é tratado. Ao invés de se tratar a participação de homens no curso de PLPs como uma forma de se repensar os objetivos e pressuspostos do grupo, relegou-se a discussão a um problema secundário. E tal secundarização do debate ocorreu pelas duas partes, tanto contra quanto a favor.

Isso mostra que essa é uma situação sem importância, que tanto faz a participação ou não de homens no grupo. A proposta da reunião é interessante, mas creio que, principalmente agora, com uma semana a menos de "preparação" para ela, não serão levantados novos argumentos. Será a mesma argumentação unilateral anterior.

2. Curso como espaço político

Um dos argumentos contra a participação dos homens é que o curso de PLPs é um espaço político, provavelmente o "único na vida daquelas mulheres a ser exclusivamente feminino".

Não faço coro a esse ponto de vista. Não vejo como tal curso pode ser encarado como espaço essencialmente político. Enxergo, antes de disso, o Fórum de PLPs como esse espaço. Tal Fórum é formado apenas pelas PLPs formados, ou também pelas em formação. Tal pré-requisito restringe a participação desse espaço às mulheres. Além disso, o Fórum é um espaço aberto, onde a reunião das mulheres tem um viés puramente político.

O curso, do qual a UnB é parceira por meio da participação de extensionistas, no meu ver, não tem esse característica notadamente política. Penso que as próprias participantes do curso, ao se inscreverem, não estão pensando em participação política, mas sim em aprendizado. Se a coordenação do curso quer fazer com que essa seja um espaço também político, tem que se articular mais na divulgação do curso, assim como no seu desenvolvimento.

3. O feminismo dentro do curso

Qual é o feminismo dentro do curso? É possível falar de diferentes feminismos? Realmente não sei responder a ambas perguntas.

Creio fortemente que essa tem que ser uma pergunta que a coordenação do curso tem que responder. Além disso, vejo também em outros momentos do curso uma dificuldade em relacionar os temas tratados com a questão dos direitos das mulheres. O curso é feminista em alguns assuntos, mas não todos.

É um problema enfrentando também pelo movimento feminista dentro do marxismo. É uma questão dentro da "revolução" ou a parte dela? Há "intersecções? É outro ponto que temos que refletir todos os dias. Esse é um curso que adota pontos marxistas? Outros pontos de vista, ou, "falando sério" outras teorias, são bem-vindas. Indo ainda mais longe, num projeto como esse, a diversidade de opiniões é bem-vinda? Se o curso é político, qual a posição política dele?

4. A participação dos membros da UnB

Qual deve ser a participação dos membros da UnB no curso? Essa é uma pergunta a qual muitas vezes fiz nesse mês de ausência. Creio que a participação do Betinho no princípio do curso esse ano tenha ocorrido uma mudança do modo de se ver essa participação.

Em primeiro lugar, não devemos estar em posição superior às mulheres do curso. Não podemos estar em uma postura de quem "observa". Temos que saber exatamente o que devemos estar fazendo ali, e caridade não faz parte de nossas atividades.

Em segundo lugar, não devemos estar em posição inferior às mulheres do curso. Não pode ser papel dos estudantes da Unb estar na Ceilândia para "servir o lanche" ou "preparar a sala para os oficineiros". Temos, cada vez mais, que incentivar as mulheres a organizarem por si próprias o lanche, assim como a formatura do fim do ano.

Nesse ponto, aposto na saída não só dos homens, mas de todos os participantes do projeto que não tenham o objetivo de se formar Promotora Legal Popular. Temos que assumir os postos de oficineiros, e não de "serviços gerais" do curso. Temos que assumir um papel pró-ativo, embora afastados do cotidiano do curso, sem tomar para si um papel de opressão.

5. Sobre a legitimidade da atuação dos homens

Sobre o discurso de que a participação dos homens deslegitima um espaço exclusivamente feminino tenho algo a acrescentar. Creio que esse discurso é mais prejudicial ao projeto do que a própria participação de homens. Ao deslegitimar a participação de homens, perde-se experiências diversas, perde uma outra forma de se enxergar tudo. Os homens nunca poderão enxergar o mundo com os olhos de mulheres. E por isso mesmo é importante a participação masculina no projeto. Tem-se que estar aberto para diálogos!

6. Trechos interessantes do texto "Olhar o Mundo com Olhos de Mulher?"

'Disto concluímos que o papel dos companheiros homens não é, evidentemente, participar, disputar a direção, representar quem quer que seja junto ao movimento de mulheres. A contradição básica que aqui se coloca é se o companheiro homem pode deixar, uma vez aceitando politicamente a questão feminista, de ser o opressor nas relações socialmentte estavelecidas na sociedade atual.'

'Nao se supera a condição de opressor decidindo não sê-lo.'

'Isto significa dizer que a simples decisão política de aceitação de princípios feministas não altera a realidade da opressão, se as relações objetivamente estabelecidas não se alteram.'

'É verdade que não se pode compreender em toda a sua complexidade o que não se sente, trata-se então de definir o que sentimos como homens que vivem a relação da opressão patriarcal no papel de opressor.'

'Se as pessoas se preocupassem menos com os nomes com que rotulam e mais com as práticas a serem desenvolvidas, esta questão talvez estivesse colocada em outro enfoque.'

'A necessária luta das mulheres, a sua especificidade, não pode fazer as companheiras se distanciarem da percepção que toda luta por igualdade pressupõe a afirmação da desigualdade, que além da luta imediata, e através dela, existe a luta pelo fim da opressão, da transformação das relações entre os sexos, de uma novasexualidade e um novo padrão de reprodução que não se baseie na opressão da mulher e na escravização das crianças. Nesta luta a relaçãocomos homens deve ser pensada na complexidade de sua particularidade como opressor-aliado.'

O nosso grupo tem que atentar para o fato de que o papel dos homens no curso de Promotoras Legais Populares não é o de opositor. É o de contraponto. Não estão lá para propro uma nova construção, mas sim para ajudar a construir. Tem-se que se decidir se essa aliança é ou não bem-vinda.

7. Resumindo

Sou a favor da permanência de homens no projeto de extensão que cuida do curso de Promotoras Legais Populares, apesar de ser contra da permanência cotidiana de qualquer membro da extensão que não esteja se formando PLP, o que exclui todos os homens.

Incentivo uma atividade de repensar o grupo, quais são os "princípios fundadores" e o que é que nos une hoje. Tal reflexão deve resultar na decisão de se ter homens simplesmente como opressores ou como possíveis aliados na causa da libertação das mulheres.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Amar, Verbo Intransitivo - do Paulistano Desvairado

Missão da noite: escrever uma resenha sobre o livro "Amar, Verbo Intransitivo", de Mário de Andrade. Coloco nesses termos principalmente porque será realmente difícil tecer um discurso totalmente concatenado sobre o livro. Tenho opiniões diversas dentro da própria trama, tanto boas quanto ruins. Me perdi um pouco dentro da narrativa, feita de modo bastante curioso.

A primeira dificuldade de se ler Amar, Verbo Intransitivo (AVI) é a de se compreender a história. As primeiras 30 páginas são bastante confusas. Não consegue-se dar cara às personagens, não consegue identificar cada uma delas na seqüência dos acontecimentos.

Quando começa-se a identificar personagens, logo vemos que a narrativa gira em volta de uma personagem alemã, Elza, ou, como será chamada por todo o livro, Fräulein. E a tentativa inicial de Andrade foi fazer com que Fräulein fosse algo como o estereótipo alemão, ainda que, para o autor, haja dois alemães dentro de um só:

O alemão propriamente dito é o cujo que sonha, trapalhão, obscuro, nostalgicamente filósofo, religioso, idealista incorrigível, muito sério, agarrado com a pátria, com a família, sincero e 120 quilos. Vestido o tal, aparece outro sujeito, homem da vida, fortemente visível, esperto, hábil e europeiamente bonitão. Em princípio se pode dizer que é matéria sem forma, dúctil H²O se amoldando a todas as quartinhas. Não tem nenhuma hipocrisia nisso, nem máscara. Se adapta o homem da vida, faz muito bem.

Porém, com o andar da carruagem, vemos que o livro não é apenas sobre uma alemã começa seu trabalho como governanta em um lar de classe média alta no Brasil. Como o títula da obra já dá a dica, AVI é sobre o amor. Também podemos afirmar que trata de costumes brasileiros nas décadas de 20/30, e, além disso, da visão que os estrangeiros têm da nossa pátria (embora fique claro que é uma visão dum intelectual brasileiro sobre o que os estrangeiros acham do brasileiros).

A história segue com sua narração confusa, com "capítulos", ou simplesmente interrupções, que muito pouco tem a ver com o centro da história. Utiliza muitas assonâncias e onomatopéias. Usa o recurso de repetir um trecho repetitivamente. Dá, no início, informações que só podem ser entendidas com a leitura. Exemplo da suavidade, da discrição do texto:

A colcha branca ondula toda, insone, por mais de meia hora, ver terremoto de teatro. Gira dum lado pro outro, se contorce. Vai se desarranjando, cai. Carlos principia a correr. Vai correndo cada vez mais rápido e depressa, 120 por hora... Pum! caius. Dá um pulo na cama, respira ofegante, se ergue. Procura a colcha e se cobre outra vez. Agora está dormindo.

E a principal das informações da história, que só vamos compreender para lá da metade do livro, é a real "missão", o trabalho pelo qual Fräulein ganhará seus oito contos. A alemã foi contratada pela família Sousa Costa para ser a iniciadora do filho mais velho, Carlos. Tudo num ponto de vista de se "proteger o menino dos perigos da rua", ou algo do gênero. Faz aquela linha de pensamento, "antes em casa do que na rua".

O peculiar de tudo é a visão de que a governanta tem do que seja o amor:

O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima.

Andrade, apesar da profissão da protagonista, pinta-a mais como uma verdadeira alemã, "culta" e "com princípios", do que como "alguém de vida fácil" (sim, eu sei que estou exagerando nos chavões nesse texto, fazer o quê?). E é nisso que está a beleza de AVI. E é aí também que teço minhas críticas quanto ao que entendo pela "mensagem" do título.

Amar, Verbo Intransitivo. O que isso nos conta? O que seria amar como um verbo intransitivo? O dicionário coloca amar da seguinte forma:

a.mar
(lat amare) vtd, vint e vpr 1 Ter amor, afeição, ternura por, querer bem a: Queria dizer a todo o mundo quanto o amava. Os egoístas não amam. Amaram-se toda a vida. vtd 2 Apreciar muito, estimar, gostar de: Feliz daquele que ama o trabalho! vpr 3 Fazer amor; copular: Os recém-casados amam-se no escuro. Antôn: detestar, odiar.


Apenas uma acepção para amar como verbo intransitivo. É a acepção de amar como algo absoluto. Vejo AVI como uma definição possível do verbo amar como intransitivo. É o amor que Fräulein tenta ensinar a Carlos. O amor, que embora idealizado, se concretiza. Um amor que, muitas vezes, perde a cara e se torna apenas corpo. É o amor que não tem complemento. Não importa o outro sujeito que se ama, mas apenas as forma a qual se ama.

Fico na dúvida se compreendi adequadamente o texto de Mário de Andrade. Tem uma leitura relativamente simples, apenas com um ou outro problema de léxico, já que quase 80 anos separam o leitor de escritor. A história é boa, embora não tenha aquela liga que nos deixa preso à narrativa, exceto por uma ou outra parte. A forma da narrativa, inclusive, é um dos pontos altos da leitura. Dou nota 7,5. O modernismo pelo modernismo, como AVI em muitas partes mostra, não é um bom projeto. Apenas quando tenta nos passar uma mensagem clara é que ganha forma é mostra todo o potencial.

Termino o post com algumas passagens que achei bastante interessantes:

O que chama-se vulgarmente personalidade é um complexo e não um completo.

Carlos esses três dias viveu? Eu não sei se alcançar a felicidade máxm, extasiar-se aí, e sentir que ela, apesar de superlativa, inda cresce, e reparar que idna pode crescer mais... isso é viver? A felicidade é tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco, dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo. Nem isso, impressão de hiato, de defeito de sintaxe logo corrigido, vertigem em que ninguém dá tento de si.

Não se discute: os estigmas do pecado alindam qualquer cara.

Porém, quando as verdades saltam do coração, nós homens intelctuais lhe damos o nome feio de confissões.

Dona Maria Luísa melancólica olha a filha. Por que tem bonecas sãs e bonecas doentes neste mundo, meu Deus!

De mais a mais assim, violentamente, a lição ficava mais viva no espírito, isto é, no corpo de Carlos. O corpo tem muito mais memória que o espírito, não é?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Olhai os Lírios do Campo, do Narrador Gaúcho

Já terminei o livro há quase uma semana e ainda não tinha conseguido juntar a vontade de escrever com a disponibilidade para tal atividade. A vontade de escrever não chegou propriamente dita, mas está mais do que na hora de escrever, senão a experiência fica muito distante e se perde as impressões mais superficiais.

Mas o que posso dizer sobre um livro da família Veríssimo? Olhai os Lírios do Campo é o livro que colocou o nome dessa gaúcha família no mapa da literatura brasileira. apesar de não ser o livro de estréia, foi o que permitiu, como Érico Veríssimo inclui em um dos prefácios, a obra que o permitiu "encarar a literatura como profissão".

Olhai os Lírios do Campo, a partir de agora OLC, não é o primeiro livro de Veríssimo que leio. Minha primeira experiência com o autor foi com Incidente em Antares, livro que li por causa do PAS 3 (que acabei nem fazendo por ter passado no vestibular antes, mas enfim). Foi uma experiência incrível. Apesar de por vezes enfadonho e demorado, Incidente em Antares nos expõe um ponto de vista gaúcho dos principais acontecimentos da história brasileira de mais de meio século. Isso tudo sem falar nos mortos-vivos, que novamente entram na moda com a publicação do mash-up Orgulho e Preconceito e Zumbis. Enfim, o motivo do post não é Incidente em Antares, livro que super recomendo, aliás, mas sim Olhai os Lírios do Campo.

As primeiras impressões do livro não são lá as melhores. Numa narrativa que, no início do livro, não é bem utilizada, mas que no final da primeira parte se mostra ideal, ficamos em uma prosa em dois tempos. A primeira narrativa é sobre as experiências passadas de Eugênio, nosso anti-herói, pelo menos na primeira parte do livro (sim, o livro é dividido em duas partes, separadas por um acontecimento vital para a história, a morte de Olívia). Já a segunda narrativa é o "presente", no caminho de Eugênio para o leito de morte de Olívia. A segunda parte do livro consiste na vida de Eugênio após esse episódio.

Mas enfim, como mostra do estranhamento do começo do livro, coloco aqui dois trechinhos bastantes esquisistos, principalmente num livro que se propõe de crítica social e romântico ao mesmo tempo. É uma realidade que o autor poderia ter deixado para depois:

Entre o seu corpo e o objeto de seus sonhos fogosos erguia-se o castigo dos professores e, ainda mais assustador, o castigo de Deus. A verdade, porém, era que nada disso conseguia apaziguar-lhe os apetites, que ele saciava solitariamente, no silêncio do quarto, cheio de medo, de vergonha e dum trêmulo e ansiado prazer.

Eugênio odiou a natureza. Ela não tinha pudor de amar assim abertamente, de gritar seus pensamentos libidinosos em plena luz do sol. Procurou afastar dela a atenção, como quem desvia o olhar duma gravura obscena.

Porém, com o andar da história, os ponteiros acertam o ritmo, e o que nos mostra é um protagonista que, na maior parte do tempo, é movido por sentimentos maus (sim, é meio piegas mesmo). Alguém que quer subir apenas por pura vaidade. Ou melhor, por insegurança.

Sim, ter sucesso por insegurança. Esse é o ponto do livro no qual muito me idenfiquei com Eugênio. A leitmotiv de sua vida é a insegurança. É esta que gera a vergonha e a ambição desmedida. É essa que faz com que Eugênio tome decisões erradas, que se tornariam indeclinavelmente em arrependimento. É também a insegurança que leva Eugênio, na segunda parte da sua vida, a seguir o caminho que teria traçado se estivesse ao lado de Olívia. Pois estar com Anamaria, sua filha com aquela, é, de certa forma, estar com Olívia. Dois trechos com os quais muito me identifico e que demonstram a insegurança de Eugênio são esses:

Tinha medo de fazer uma análise íntima, de olhar para dentro de si mesmo, pois seria cruel descobrir que a represa estava seca ou que continha apenas mágoas, incertezas, gritos de espanto e dúvida, velhos recalques.

Eugênio se esforçava por entrar na alegria berrante das horas de recreio, dos bailes que os rapazes improvisavam no grande salão de ginástica. Era inútil. Um dia gritara no meio da balbúrdia e ficara o resto do tempo a ouvir o eco interior da própria voz naquele grito sem graça, sem alegria, sem espontaneidade, sem juventude. Envergonhara-se de si mesmo.

Esse último trecho pode-se dizer que foi escrito olhando para minha experiência de calouro. Foi um ponto de flexão na minha vida, em que saía de uma melancolia de despedida para encontrar o novo, com novas atitudes. Entretanto, vi que a realidade não mudou como um todo, mas que o que devia mudar era a atitude perante a ela, apenas.

Podemos enchergar a insegurança em Eugênio em sua segunda fase por meio destes dois trechos. O que acho interessante é que, apesar de ter virado um personagem "bonzinho", essa bondade não é absoluta. É, com certeza, entremeada de dúvidas.

Repetia palavras e idéias que andavam no ar. Mas a verdade era que a pobreza e a infelicidade alheia, para ele, não tinham existência real. Ele só sabia das suas próprias dores, necessidades, do seu drama pessoal.

"A bondade não é uma virtude passiva". Como era fácil ser mau e como era ainda mil vezes mais fácil ser indiferente! A roda da vida girava e no fim de tudo estava a morte, o silêncio, o aniquilamento.

A questão dos sentidos, principalmente enquanto Eugênio era casado com Eunice, é bastande interessante, o que também está presente na sua relação com o Megatério (por que será que parece tanto com Cemitério hein?). Como a insegurança, ou o complexo de inferioridade, como ospersonagens do livro se referem, é transposta na relação de Eugênio com as coisas:

Se conforto tem um cheiro especial, ele o estava aspirando agora: um cheiro adocicado e pulverulento que vinha da madeira lustrada, dos estofos finos, da cera do assoalho.

Outro ponto que achei extremamente interessante no livro é na alta dose de sensatez, de consonância com muito do que penso. Apesar de ser uma história "feliz", com um final em que as coisas terminam relativamente bem, a natureza humana é descrita como má. É uma forma de se dizer: pode-se ser contente nessa confusão de sentimentos e nesse mundo infeliz.

É o mal da raça a mania de discutir, a volúpia de vestir um escafandro e descer ao fundo de todas as coisas. Mas é que existem lagos rasos.

Termino minhas impressões com a mais bonita parte do livro. É a esperança de Olívia, que, mesmo tendo sida "desverossimilhancizada" pelo Veríssimo em um dos prefácios, a oposição à insegurança de Eugênio. É aquela esperança que vence a insegurança.

Olha para o céu. As estrelas estão mais nítidas. Olívia fala na sua memória: "Olha as estrelas. Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida". Ela sempre lhe dizia essas palavras. Tinham um misterioso sentido. As estrelas eram um símbolo de pureza, qualquer coisa inatingível que a mão dos homens não havia ainda conseguido poluir.

Um bom livro, embora não ótimo. Nota 8,5. É um daqueles que nos faz pensar, com uma história e um protagonista que nos envolve.

domingo, 11 de abril de 2010

Cristóvam Buarque: o semeador de utopias, de Marcel Bursztyn

Creio que esse livro foi o melhor preço-benefício que já tive em uma leitura. Apenas quatro reais para aproximadamente 140 páginas. E boas páginas. Escrito por Marcel Bursztyn no idos do ano de 1998, esse livro, parte da coleção organizada pela Editora Universidade de Brasília "Contemporâneos do Futuro", tem a pretensão de ser, ao mesmo tempo, uma biografia resumida do agora Senador, na época do livro Governador, e, principalmente, desde os 12 anos, professor Cristovam Buarque e um bom apanhado do que este pensador já fez em matéria acadêmica. Digo matéria acadêmica porque me foge palavra melhor; poderia também dizer o que Buarque fez como construtor de conceitos. O autor, Marcel Bursztyn, professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UNB, foi presidente da CAPES durante o período de Ministro da Educação de Buarque.

A estrutura do livro é bastante fluida, realmente gostosinho de ler, tanto que o fiz, na maior parte do tempo, dentro de um ônibus, a caminho do estágio. Expõe a vida do biografado como uma árvore, tendo raízes, broto, tronco, ramos, frutos e sementes. Mostra-nos o caminho de Buarque até os estudos na Europa e sua volta. Também nos é muito feliz em mostrar os principais conceitos do autor, mesmo que de forma extremamente simplificada.

Vejo que o principal ponto positivo é nos fazer entender melhor um dos mais bem avaliados parlamentares brasileiros. Alguém que acredita que

Mudanças de regime político ou de governo não devem implicar a demolição nas estruturas do Estado. Estas são passíveis de transformações, mas atacá-las em seu caráter perene, causando descontinuidade, é uma manobra de alto risco. Nesse sentido, um Projeto para o Brasil, hoje, deve ter em conta o estado real das nossas instituições, e não partir do princípio de que elas devem ser desmanteladas.

Antes admirador, agora sou fã desse plantador de abobrinhas, lembrando que, quando Darcy Ribeiro proferiu sua já célebre conferência Universidade Pra Quê? quem estava ao seu lado na mesa era o Reitor Buarque, que, "quando crescesse gostaria de ser Darcy Ribeiro".

Um dos grandes conceitos que levo o do livro é que ao invés de propormos distribuição de renda, devemos é promover a distribuição de oportunidades. Seu passo em relação a essa idéia foi o bem fadado (e hoje meio descontextualizado) Bolsa-escola, um programa social que divide a responsabilidade do governo com o beneficiário, ao ter este que manter o filho na escola.

A mudança da Modernidade Técnica para a Modernidade Ética, temática que deve estar presente nos estudos do CDS e do CEAM, ambos departamentos transdisciplinares criados em sua reitoria, nos leva a pensar também em uma outra forma de mensuração do sucesso de uma nação. Sai PIB, entra um medidor capaz também de avaliar aspectos sociais. Enxergo o IDH e o índice de Gini como algo parecido com a proposta (devemos lembrar que o livro é de 1998).

Acho também muito válidos os quadros do livro, que reproduzem as idéia do livro A revolução nas prioridades, de 1994. Reproduzo aqui dois deles:

Dez Erros da Modernidade Brasileira
I. A implantação de uma política de substituição de importações de bens industriais, sem modificação na estrutura de propriedade de terra e no produto da agricultura, que continuou baseada em latifúnidos voltados para as exportações;
II. A industrialização com base em uma opção por técnicas desadaptadas aos recursos naturais, às características culturais, às necessidades sociais e ao potencial econômico do Brasil;
III. A ditadura;
IV. A concentração de renda;
V. O endividamento;
VI. A ênfase nas exportações, no lugar da construção de um mercado interno;
VII. A prioridade à infra-estrutura econômica, com abandono da infra-estrutura social;
VIII. a cartorização, a corporativização e a concentração econômica;
IX. A implantação de um sistema de produção do saber e de comunicação social voltados aos interesses individuais, à dinâmica do mercado e à alienação cultural, sem compromisso educativo nem sintonia com a cultura nacional;
X. a democratização política não acompanhada de mudanças nas prioridades socioeconômicas.


As Dez Prioridades que Mudariam o Brasil: o caminho da modernidade técnica para a modernidade ética
I. Uma população educada e culta
II. Um país sem fome
III. Não se morrer antes do tempo e viver com saúde
IV. Modernização da cultura, no lugar de cultura da modernidade
V. Ciência e tecnologia a serviço da modernidade
VI. Sustentabilidade ambiental do desenvolvimento
VII. Ocupação descentralizada do território e cidades sustentáveis
VIII. Eficiência econômica aferida por indicadores de qualidade de vida
IX. Resultados sociais como determinantes da ação do Estado
X. Política externa independente, garantindo a soberania nacional.


Partes muito interessantes foram as mostras do caminho de Cristóvam tanto para a Reitoria como para a Governadoria do Distrito Federal, suas dificuldades e inovações.

Dessa forma, dou notinha 9,5 para esse pequeno livro, quase um folheto, que tem como propósito apresentar esse grande Brasileiro, que, como bem me lembro, nas eleições presidenciais de 2006, ao ser indagado se era um candidato de uma só bandeira (a educação) responde: Sim, sou de uma só bandeira, a bandeira do Brasil!

Termino esse texto com uma fala do próprio Cristovam:

Cada pessoa é a soma das respostas que deu, ao longo de sua vida, às perguntas que lhe foram formuladas. O sucesso depende dos acertos nas respostas. Mas os homens que mudam o próprio destino são aqueles que não se limitam a acertar respostas, mas também criam as próprias perguntas certas para o momento

Gilberto G

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bem Jurídico-penal e Constituição, de Luiz Regis Prado

Não posso nunca me esquecer que sou um estudande de Direito. E, mesmo de greve, isso se traduz no fato de que leio livros jurídicos. O primeiro, e único deles, por enquanto, é Bem jurídico-penal e Constituição, a partir de agora BJPC, de Luiz Regis Prado. O lado ruim é que, pela impessoalidade, e certo anonimato do autor e do assunto, acabo não tendo um epíteto para ele. Deplorável, mas enfim, que haja seqüência.

BJPC foi escrito como etapa para a seleção de professor titular em uma Universidade no Sul do país. É uma atitude respeitável essa, a de um concurso público exigir a contribuição do professor para a entrada em seus quadros. Li o livro como recomendação e pré-requisito do Fredão, famoso professor de Teoria Geral do Direito Penal aqui da excelsa Universidade de Brasília.

Dá as bases introdutórias para a Ciência Penal, tentando conceitualizar bem jurídico dentro de um contexto ao mesmo tempo penal e constitucional. Leva em consideração a evolução histórica do termo e de como, com o passar do tempo, o bem-jurídico penal vem tamando seu escopo cada vez mais em matéria constitucional. Assim, os bem jurídicos penais, mesmo sendo, a priori, observados na realidade, têm sua base material na Constituição, contemporaneamente mãe de todos os códigos sistematizados.

Sigo o conceito objetivista de Wenzel, transposto na obra, que considera bem jurídico aquele

bem vital da comunidade ou do indivíduo, que por sua significação social é protegido juridicamente

Acompanhando Regis:

Os bens jurídicos têm como fundamento valores culturais que se baseiam em necessidades individuais. Essas se convertem em valores culturais quando são socialmente dominantes. E os valores culturais transformam-se em bens jurídicos quando a confiança em sua existência surge necessitada de proteção jurídica.

Outro ponto interessante do livro, que é brevemente abordado pelo autor, são as diferentes funções do bem jurídico, o que por tabela, acaba por abarcar, de certa forma, as funções do Direito Penal:

Função de garantia ou de limitar o direito de punir do Estado, Função teleológica ou interpretativa, Função individualizadora, Função sistemática.

Outra questão, que fecha o livro, é a de que, após a Revolução Francesa, e, principalemente, com o advento do constitucionalismo contemporâneo, o Direito Penal surge não mais como a mão forte do Estado, cuja função é a de limitar o indivíduo por meio de normas ditadas pelo Soberano. A função penal hodierna é, segundo as palabras de PRADO, é de, muito antes de garantir um suposto direito subjetivo de punir do Estado, garantir o usofruto dos bem-jurídicos por parte dos indivíduos.

Enfim, encerro por aqui a resenha, que dessa vez foi muito mais um resumo, já que me sinto incapaz de tecer opiniões sobre um assunto sobre o qual tenho tão pouca formação, e ainda sobre um tema escrito por uma autoridade no assunto. Nota 7,5, leitura fluente, mas por muitas vezes muito superficial, sendo que havia espaço para aprofundamento.

Gilberto G.

Morro dos ventos Uivantes, da inglesa monotítulo

Após uma grande ausência, aqui vai mais uma resenha. Se trata do livro Morro dos Ventos Uivantes, Wuthering Heights no original, a partir de agora MVU, da inglesa Emily Brönte. Sim, antes que perguntem, só peguei o livro pra ler porque ele é "o livro favorito da Bela de Crepúsculo" (não que eu seja um fã de Crepúsculo, mas convenhamos, é tão difícil a cultura pop fazer referência a alguma coisa que presta que tive que me render). A autora, como nos mostra a introdução do livro, cuja primeira tradução brasileira é de Raquel de Queiroz, nossa primeirA imortal, tem uma história tristinha, sofrida e tals, e usou sua própria desgraça para dar alguns tons na obra. Enfim, nada original, mas muitas das nossas maiores obras-primas são feitas desse jeito, fazer o que né?

A história é sobre um monte de gente com nomes muitos parecidos. Entre Catherines, Heathcliffs, Lintons e Earnshawns, só resta a confusão. Mas no fim das contas é o seguinte. Catherine "the first", a Earnshaw, é apaixonada por Heathcliff, o fodão que era grosso acanhado e, quando grandão, quer se vingar dos Linton, cujo representante Edgar se casa com Catherine. Enfim, daí pra frente é uma confusão de famílias e de gerações, desgraças após desgraças, "numa das mais belas histórias de amor já escritas"...

Creio que uma das coisas interessantes no livro é o rodízio de narradores. É um artifício que só contemporâneamente vem sendo mais usado, e que Brönte usou, ainda que desajeitadamente. O narrador-mor, digamos assim, Mr. Lockwood, é um outsider da história, inquilino do Heathcliff, que ao conhecer Ms. Nelly Dean, espécie de governanta tanto de Trushcross Grange e Wuthering Heights, paradas de onde se narra a história, pede que ela lhe conte a história do seu estranho locador. Daí tem-se que Ms. Dean é a real narradora da história, já que Lockwood apenas reproduz suas palavras. É uma forma interessante de se obter uma pretensa imparcialidade no narrador.

Sobre passagens admiráveis no livro, pora minha ingrata surpresa, não são lá muitas, já que o livro se perde muito em passagens deploráveis e diálogos volumosos mas pouco densos. Aliás, essa é uma característica que creio ser presente nos livros da época, em que a leitura já era razoavelmente difundida e não havia outro modo de comunicação mais rápido: a prolixidade.

Vou-me dirigindo ao fim. Esse livro, que foi lindo em boa parte do tempo dentro de um ônibus, nunca entraria numa lista de TOP 10 do ano. É um romance quase que como qualquer outro, só que baseado na desgraça de seus protagonistas. [SPOILER} O grande problema é que, quando vamos nos dirigindo ao desfecho da história, já calejados de tantes desventuras e de tanta maldade acumulada nos coraçõezinhos de pedra dos malfeitores, eis que acontece o bem. O malvadão morre pra ficar com sua amada defunta e mocinha-que-havia-perdido-tudo-por-casar-com-o-primo-filho-do-vilão-que-morre-jovem fica com seu primo-grosso-que-foi-criado-pelo-vilão-depois-de-seu-pai-irmão-da-primeira-Catherine-morrer. Em outras palavras, amargamos por volta de 260 páginas de mais absoluta tristeza para passar por 30 de mais bela felicidade. Tenha dó.

As notas, claro. Dou 5,5. Já disse, apesar de clássico, não me empolgou. Não chego a reprovar o livro ou desaconselhar a leitura. Mas certamente não seria um dos que prontamente indicaria. É um romance desgracento maçante sobre personagens frustrados com tudo e com todos. A tempo, adoro Nelly Dean com todo o seu "queria estar fazendo o bem para todos mas só faço cagadinha".

Gilberto G.