não mais que de repente”, encontro, em meio a tanto concreto de minha diária rotina, minha tão comum e aborrecida rotina, não uma rosa, ou violeta, ou crisântemo, ou flor-de-lis, encontro um livro. Um livro que, apesar de fechado, trancado a chave, me aparece interessante.
Mas me pergunto, por que só eu tomo consciência desse livro? Por que as outras pessoas também não param junto a mim para, num esforço conjunto, abrirmos esse livro? Não sei. E não saber só me faz sentir mais vulnerável. Quem para em meio a tanto concreto para admirar um livro fechado? Sinto-me louco.
Tomo, então, solitariamente, uma atitude. Tiro o livro do concreto que me prende, e, surpreendentemente, ele se abre a mim. E a abertura se deu naturalmente, sem força. Começo a lê-lo, e percebo que há partes em uma língua que não compreendo. Há também partes bastantes claras, como que se fossem escritas por mim. Assusto-me. Quando nos identificamos tanto com um texto e não sabemos o que está escrito antes, ou depois, a curiosidade nos consome.
Decido então me dedicar a esse livro. Partes obscuras tornam-se mais claras. Vejo inclusive marcas de quem já o lera, e me pergunto de que forma esse livro foi lido, como foi manuseado, onde esteve e por que estava no concreto da minha rotina.
Obceco-me pelo livro. E ele está comigo aonde quer que eu vá. Decoro excertos. Mostro-o para meus mais íntimos amigos. Eles não o entendem como eu. E isso só me mostra como fui feliz ao encontrá-lo, sem nem ao menos procurá-lo. Ele simplesmente se encontrava em meio ao concreto da minha vida.
Hoje, abraço-me a esse livro, coloco-o em meu colo, e ficamos horas os dois em silêncio. Um silêncio despretensioso, complacente, companheiro. Um silêncio que apenas me mostra o quanto me identifico a ele. Não consigo colocá-lo em estante alguma, em classificá-lo. Tal livro é único. Nessa singularidade que espelha a mim mesmo, amo-o.
Gilberto G. 25/09/2009.
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